Em 2013-05-11 18:55:00 - Por César William
César William*
Mãe, há 45 anos a senhora tem sido, depois de Deus, meu escudo e minha fortaleza. Como tudo passou tão rápido. Em muitos momentos se sentiu sozinha, porque era apenas menina, já com tamanha responsabilidade. Quantas vezes, fitando as estrelas, aproveitando as arestas do nosso modesto teto de palha, em noites quase intermináveis, dialogou com Deus, pedindo forças para cuidar do menino prematuro que ninguém dizia que iria sobreviver?
E em muitas dessas noites, a senhora esteve aflita, derramando lágrimas, sentindo-se impotente diante de tanto compromisso. Mas, juntamente com meu pai, travou luta ferrenha para me manter, juntamente com meus seis irmãozinhos.
Era tudo tão difícil. Faltava água. Não tínhamos geladeira, tevê, nem mesmo energia elétrica. Outras vezes, o pão era escasso em nossa mesa, muito escasso, mas nunca faltou amor, ainda que pouco fosse o afeto.
Esse amor, mãe, foi, é o alimento que não me deixa perecer, mesmo quando ando por lugares ermos, por entre predadores de sonhos. Ele me faz ser valente, destemido, atento ao que vejo e a coisas ocultas.
Porque, suas mãos abençoadas continuam fazendo render alimentos, nutrindo sempre meu espírito, sobretudo depois que resolveu ousar: pegar minha mão e me ensinar desenhar as primeiras letras, do seu jeito, do seu modo. Com tão pouca instrução, utilizava-se de mágicos recursos para ver minha mão bordar, trançar palavras.
Ensinou-me o alfabeto da alma, deu-me doutorado em educação. Mas, depois de crescido falhei tanto mãe, trouxe-lhe alguns dissabores, tantas preocupações, com minhas teimosias, devaneios, existencialismo estrambótico, projetos de outro mundo.
Mesmo assim, dona Maria Rita, saiba: nossa casa, nossa família foi, é, sempre será minha grande universidade, raiz e asa. Seus cuidados carinhosos com as plantas, com os animais e com o humano, conduziram-me a ser amante da natureza e atento à alma humana. As vogais e consoantes que me ensinou a desenhar transformaram-me em poeta, escritor maltratado às vezes por um homem ansioso que se deixa envenenar pela indiferença de uns e ser ferido por lâminas hostis do sarcasmo de outros. Mas, serenarei, mãe, uma hora serenarei, mesmo diante de tudo isso, obedecendo ao que a senhora sempre pede que eu o faça.
Hoje, sábia Ritinha, sou professor, entretanto, jamais ministrarei uma aula como aquelas que a senhora planejava com a alma prenhe de desejo de me transformar em cidadão do bem. Obrigado, mãezinha, prossigo em busca do sol, mas saiba mais: pelas universidades por que passei, a senhora continua sendo minha doutora inigualável. Eis aqui seu diploma, este textozinho sem pretensões literárias, para dizer que te amo, antecipando votos de FELIZ DIA DAS MÃES.
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Ps.: Beijo na alma, obrigado por esse caráter ilibado, por essa resistência e por ser um ser tão raro em um mundo em que a maioria das pessoas são tão superficiais, bestificadas por títulos, rótulos e igrejismos.
*Poeta, professor e pesquisador.